Brasil tem quase dez vezes mais mortes no trânsito que Noruega e Suécia — e o motivo vai além da renda
Enquanto países escandinavos constroem sistemas para tolerar o erro humano, o Brasil ainda aposta em campanhas que não mudam cultura.
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A Noruega perdeu apenas 87 pessoas em acidentes de trânsito no ano passado e recebeu o prêmio europeu de segurança viária. O país registra cerca de 1,6 morte por 100 mil habitantes; a vizinha Suécia, 2. O Brasil, segundo o Jornal do Carro (Estadão), marca 15,7 — quase dez vezes mais, de acordo com estimativa da Organização Mundial da Saúde. A diferença não se explica apenas pelo dinheiro: estudos do Banco Mundial, conforme aponta a reportagem, mostram que a renda per capita explica mal as disparidades entre nações em segurança viária.
O Jornal do Carro (Estadão) recorre a um episódio histórico para ilustrar por que campanhas isoladas falham. Em setembro de 1967, a Suécia trocou a mão de direção numa operação logística monumental — o chamado Dagen H —, precedida por quatro anos de educação intensiva com apoio de psicólogos e onipresença do tema até em roupas íntimas. No dia da mudança, houve apenas 157 acidentes leves e nenhuma morte. Cerca de um ano e meio depois, porém, os índices voltaram ao patamar anterior: quando o medo da novidade desapareceu, o comportamento voltou ao que era antes.
A lição que a Escandinávia tirou desse experimento, segundo a publicação, é que campanha não cria cultura de trânsito — sistema cria. O modelo adotado pelos países com melhores resultados tem nome: Sistema Seguro. Ele parte do princípio de que pessoas cometem erros e que o ambiente viário deve ser projetado para que esses erros não terminem em morte. "Os países com melhores resultados mostram justamente que segurança viária não pode depender de termos uma população de motoristas perfeitos", afirma Paulo Guimarães, CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, citado pelo Jornal do Carro (Estadão).
O Brasil, conforme a reportagem, está preso numa armadilha típica de países em desenvolvimento: já superou boa parte da chamada transição epidemiológica — doenças infecciosas matam muito menos do que décadas atrás —, mas sua segurança viária permanece compatível com a de nações bem mais pobres. A urbanização acelerada e o crescimento da frota não foram acompanhados por vias, fiscalização e atendimento emergencial na mesma velocidade. O resultado é que 92% das mortes no trânsito do planeta ocorrem em países de baixa e média renda, que concentram cerca de 60% dos veículos — e o Brasil segue nesse grupo, apesar do nível de renda já alcançado.
Fontes
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